Minha formação em tradução e interpretação no Brasil

Artigo escrito por Fabio Said

Em 2018, comemorarei 25 anos desde que obtive minha primeira qualificação como tradutor e intérprete no Brasil. Aproveito a ocasião para compartilhar com você alguns flashbacks e memórias, através de uma série de 12 artigos. O artigo deste mês é sobre o início de tudo: minha formação profissionalizante em tradução no Brasil.

A escola e seu sistema de ensino inovador

Aos 14 anos de idade, após passar em uma série de exames de ingresso, fui aceito como aluno de um internato com alto padrão de ensino. O objetivo era obter uma formação secundária humanista e depois uma formação profissionalizante em tradução de dois anos, seguida de um estágio curricular obrigatório de seis meses.

A escola se chamava Colégio Técnico da Fundação José Carvalho, localizada na Bahia, e era mantida por uma fundação sem fins lucrativos, que por sua vez era acionista majoritária de um grupo empresarial da área de mineração. Em sua maior parte, o ensino não se dava em sala de aula, mas sim através de “módulos” mensais nos quais eram estipulados os objetivos e tarefas de cada matéria, a serem cumpridos pelo aluno de maneira autônoma. Para ser aprovado em um módulo, era preciso passar em uma prova oral e uma prova escrita, obtendo pelo menos a nota mínima 80 em uma escala de 0 a 100.

Esse sistema valia para matérias como Biologia, Química, Física, Matemática, entre outras. Para matérias como Português e Inglês havia atividades em grupo. Inglês era a única matéria na qual havia não só o estudo individualizado como também o clássico formato de sala de aula.

Além disso, não havia as matérias História e Geografia, mas sim uma mistura interdisciplinar destas e outras matérias, tais como Filosofia, Sociologia, História da Religião e História da Arte. Essa mistura interdisciplinar era chamada de Conhecimentos Gerais e foi uma ótima base para minha posterior formação profissionalizante em tradução.

O campus da escola

O internato possuía uma quadra poliesportiva coberta, campo de futebol, piscina olímpica e um lago artificial à margem do qual havia uma estátua de 15 metros do filósofo Sócrates. Na área do internato havia ainda um templo ecumênico e um teatro. Dessa forma, tínhamos a oportunidade não somente de adquirir uma formação científica, como também nos desenvolver nas áreas esportiva e artística. Todos os anos, ingressavam cerca de 30 novos alunos, mas nem todos conseguiam concluir o curso, pois éramos avaliados rigidamente a cada semestre nos quesitos disciplina, desempenho escolar e comportamento.

Conteúdo da formação profissionalizante em tradução

Havia 3 cursos profissionalizantes: Técnico em Computação, Técnico em Mineração e Técnico em Tradutor e Intérprete. No início do 2º ano da formação geral, tínhamos de escolher um desses cursos e para isso participávamos de uma série de atividades para orientação profissional. De início, eu pretendia estudar Computação, mas logo após as primeiras provas de Inglês ficou claro que meus talentos se concentravam na área de línguas. Em minha turma, 3 de 25 alunos optaram pelo curso de tradutor e intérprete.

Livro "Guia do Tradutor" (2013), de Fabio Said
Formas de qualificação profissional na área de tradução são discutidas no meu livro Guia do tradutor: melhores práticas

No primeiro ano da formação profissionalizante em tradução, cursávamos sobretudo matérias de aprofundamento em Inglês, Português e Conhecimentos Gerais.

Depois disso, havia módulos de Inglês Técnico com foco na terminologia de Mineração, Informática, Indústria, Comércio etc. e exercícios de tradução e interpretação. Nos últimos segmentos do curso profissionalizante, a comunicação com os professores (um inglês e um brasileiro com formação nos Estados Unidos) e entre nós, alunos, se dava o tempo todo em idioma inglês e não em português.

No final, havia módulos de Literatura de Língua Inglesa, nos quais tínhamos de ler obras de Chaucer, Shakespeare, Lord Byron, Henry James e Virginia Woolf, entre outros, redigindo monografias e traduções literárias inglês-português e português-inglês.

Ao avaliar a minha monografia final, o professor responsável pelo Departamento de Inglês escreveu o seguinte sobre mim:

“You have a genuine talent. Use it wisely. I look forward to hearing of your success in the future.”

A conclusão do curso de tradução – no Dia Internacional do Tradutor!

A parte teórica do curso eu concluí no dia 30 de setembro de 1992 – Dia Internacional do Tradutor! Um mês depois iniciei um estágio curricular como tradutor técnico de Mineração e Comércio em uma empresa da área de mineração.

Meu orientador no estágio era um geólogo que acompanhava meu desempenho e me ajudava com a terminologia técnica. Além de correspondência comercial e estudos científicos, traduzi também 2 livros do inglês para o português, entre eles um manual de Geologia Estrutural, para uso interno da empresa. Em julho de 1993 – aos 18 anos de idade – recebi finalmente meu diploma e o título reconhecido nacionalmente de “Técnico em Tradutor e Intérprete“. Agora, eu estava pronto para a grande aventura!

Um triste adendo: A escola não existe mais no formato explicado acima. Minha turma foi a penúltima. O internato e seu projeto educacional inovador funcionaram durante uns 15 anos, mas tiveram de ser encerrados por motivos financeiros. Com isso, foi fechada esta que foi uma das três ou quatro escolas de tradutores que havia no Brasil.

No último ano de minha formação profissionalizante em tradução inglês-português, tive meu primeiro contato com a língua alemã – este é o assunto do segundo artigo desta série.

Fabio Said, tradutor na Alemanha
Sobre o autor
Fabio Said
Fabio Said é tradutor-intérprete jurídico de alemão, português e inglês, com diplomas obtidos na Alemanha, Inglaterra e Brasil. Profissional desde 1993, é especializado na burocracia Brasil-Alemanha e trabalha em tempo integral para tribunais, tabelionatos, órgãos públicos e pessoas particulares, com centenas de avaliações positivas.

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