Acaba de ser publicada na Alemanha uma nova antologia sobre competência intercultural de tradutores e intérpretes. A antologia contém um artigo meu no qual discuto a questão de como tradutores juramentados podem utilizar e comunicar o valor agregado especial que possuem como profissionais especializados em interculturalidade mesmo diante da crescente comodificação do mercado de tradução. Esse valor agregado é para mim a “pena de ouro” – para reciclar uma expressão que ouvi anos atrás durante uma conversa infeliz com um cliente – do tradutor juramentado.
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A pena de ouro do tradutor juramentado
“Você traduz com uma pena de ouro, ou o quê? Eu só preciso que você traduza palavra por palavra!” Essa foi a reação de um cliente – um italiano que morava na Alemanha – quando eu dei a ele, por telefone, o meu preço para a tradução de documentos para casamento na Alemanha.
No setor de serviços, dar preços por telefone quase nunca é uma boa ideia. Entretanto, nesse caso específico, o primeiro contato bem como o atendimento profissional e toda a comunicação comercial já tinham sido realizados previamente em outra língua com a noiva do cliente – uma brasileira que morava no Brasil –, de modo que o italiano infelizmente não conseguiu entender o meu valor agregado como profissional e, portanto, não entendeu o porquê do valor do serviço.
Mas é justamente esse o aspecto que está no cerne da tradução pública: o valor agregado oferecido por tradutores juramentados como profissionais especializados que se movem entre duas culturas.
O valor agregado de um tradutor juramentado especializado
Diante da contínua “comodificação” do mercado de tradução, que, infelizmente, é resultado também da atitude de certos profissionais da tradução que não conseguem reconhecer suas próprias vantagens competitivas, está cada vez mais difícil comunicar ao cliente o valor agregado.
Além disso, os profissionais que atuam na área de tradução juramentada têm uma oportunidade que muitas vezes não é aproveitada, pois apenas esses profissionais possuem, em razão de suas qualificações linguísticas, o conhecimento necessário para se especializar numa determinada variante linguística e em documentos de um determinado país e, com isso, oferecer ao cliente um atendimento intercultural inigualável.
De que maneira os tradutores públicos podem aproveitar essa oportunidade para se firmar no mercado face às grandes empresas de tradução? Quais são exatamente as vantagens competitivas desses profissionais como mediadores interculturais que possuem qualificações linguísticas e especialização num país específico? E como é possível chegar a tal especialização?
Essas questões são discutidas num artigo meu publicado como parte de um livro recém-lançado sobre competência intercultural de tradutores e intérpretes. No meu artigo, eu mostro, com recomendações práticas, de que maneira os tradutores públicos podem eliminar concepções equivocadas tais como “pena de ouro” ou “traduzir ao pé da letra” e comunicar corretamente o seu valor agregado como profissionais.
O livro contém outros 9 artigos sobre competência intercultural e comunicação intercultural.
Competência intercultural de tradutores e intérpretes
O livro em alemão (com alguns artigos em inglês) é a segunda antologia sobre competência intercultural organizada pela tradutora Beate Hampel para a editora da Federação Alemã de Tradutores e Intérpretes.
Na primeira antologia (2017), os 10 artigos se concentraram em bases e reflexões teóricas da competência intercultural bem como em abordagens práticas e histórias de sucesso na área de comunicação intercultural.
Novos artigos sobre competência intercultural
Os novos artigos se concentram sobretudo nos efeitos dos avanços tecnológicos dos últimos anos sobre a percepção que a sociedade tem dos tradutores e intérpretes como profissionais especializados em interculturalidade e discutem de que maneira a competência intercultural se torna perceptível na tradução e interpretação das seguintes línguas: alemão, inglês, francês, árabe, português, japonês, italiano ou chinês.
Os 10 artigos da nova antologia são:
- Flashpoints in institutional translation, de Dra. Stephanie Ashford
- Die Berücksichtigung von Interkulturalität beim literarischen Übersetzen, de Barbara Neeb e Katharina Schmidt
- Herausforderung Arabisch – Über die Grenzen der neuronalen maschinellen Übersetzung, de Dr. Daniel Falk
- Die “goldene Feder” des Urkundenübersetzers, de Fabio Said
- “Er hatte es dreimal getan, bevor er sein Bett verließ…” – Literatur übersetzen mit DeepL? Eine Fallstudie im Sprachenpaar Französisch–Deutsch, de Regina Keil-Sagawe
- How do Machines Translate Culture?, de Dra. Kelly Neudorfer
- “Warum widersprechen die Deutschen immer?” – Erfahrungen aus dem deutsch-japanischen Dolmetschalltag, de Maria Deutsch
- Dolmetschen im Gemeinwesen – ein Kinderspiel? Herausforderungen und Anforderungen beim Community Interpreting, de Regina Prokopetz
- Interkulturelle Kompetenz als Mehrwert am Beispiel von Chinesisch-Übersetzungen, de Angelika Schutzbach-Böhme, Beate Hampel e Denise Mallon
- Der Sprachmittler als verantwortlicher Kommunikationspartner, de Dra. Radegundis Stolze
A nova antologia sobre competência intercultural pode ser adquirida no site da editora alemã.
