Minha experiência como empresário imigrante na Alemanha

Artigo escrito por Fabio Said

Em 2007, me mudei do Brasil para a Alemanha e abri uma empresa de tradução especializada em português brasileiro na cidade de Rheinbach, perto de Bonn e Colônia. Abaixo – na décima parte da série de artigos sobre os meus 25 anos no mercado de tradução – descrevo brevemente a minha experiência e observações como empresário imigrante na Alemanha até agora.

Visto de trabalho, visto permanente e naturalização

Vim para a Alemanha com um visto de trabalho, que obtive 5 meses depois de ter feito o requerimento no consulado alemão e que me autorizava a exercer a profissão liberal de tradutor e escritor. Logo após a chegada, converti o visto em autorização de permanência, que tinha de ser renovada a cada 2 anos. Após 7 anos, ficou claro que não havia mais interesse em voltar para o Brasil, por isso solicitei a autorização de permanência definitiva (conhecida informalmente como “visto permanente”), para não precisar me preocupar mais com a renovação.

Quando fiquei sabendo que os pré-requisitos para o visto permanente eram mais ou menos iguais aos da naturalização com base em tempo de residência, decidi solicitar a naturalização. O pré-requisito mais absurdo foi comprovar participação no chamado “curso de integração” – apesar de eu não apenas possuir certificados de língua alemã como também ser habilitado por um tribunal alemão como tradutor juramentado de alemão. Dessa forma, o Serviço de Imigração me obrigou a frequentar o curso de integração durante 4 horas por dia por 3 semanas – sem qualquer ajuda de custo nem ressarcimento das horas não trabalhadas – para que eu pudesse obter o visto permanente, que, por sua vez, era pré-requisito essencial para o requerimento da naturalização.

Cumpri obedientemente o que me foi exigido e logo em seguida solicitei a cidadania alemã. Com a naturalização, fiquei livre de ter de marcar visita ao Serviço de Imigração, cumprir exigências burocráticas absurdas e pagar taxas de renovação de visto.

Nenhuma discriminação como empresário imigrante

Durante todos esses anos como empresário imigrante na Alemanha – exceto por uma breve confusão devido ao meu sobrenome árabe, pois as pessoas aqui nem sempre entendem que o Brasil é um país de imigrantes e que a minha família brasileira é, em parte, originária do Líbano – nunca sofri qualquer episódio de discriminação. Nem mesmo na vida privada.

Talvez isso se deva ao fato de que eu já dominava o alemão quando vim para a Alemanha pela primeira vez em 1996. Nunca tive choque cultural porque, já antes de aterrissar em Frankfurt, eu já estava preparado dos pontos de vista linguístico e cultural.

Por outro lado, a minha experiência foi positiva certamente também devido ao fato de que eu sempre atuei como profissional de idiomas e – como é comum nessa área profissional – trabalhava com um pé em duas culturas, o que facilita a assimilação cultural. Imigrantes originários de outras áreas profissionais e que não dominam o idioma alemão têm, talvez, uma experiência diferente e não tão positiva.

De qualquer forma, os empresários com raízes em outro país são um grupo populacional que dificilmente se pode ignorar: em 2014, segundo um estudo da fundação Bertelsmann Stiftung, havia na Alemanha 709.000 pessoas de origem estrangeira que tinham seu próprio negócio.

Diferenças de mentalidade de negócios

Antes mesmo da minha mudança, eu tinha clientes na Alemanha, de modo que não foi difícil me adaptar à mentalidade de negócios alemã. Porém, o que me incomodou foram as grandes diferenças entre os países europeus em termos de práticas de pagamento.

Nos primeiros 5 anos, eu ainda trabalhava para agências de tradução na Áustria, Espanha, Itália e Reino Unido e em cada um desses países havia, por exemplo, condições de pagamento diversas e também, infelizmente, uma forma única de interpretar o significado do termo “pontualidade”. Clientes nesses países achavam absolutamente normais prazos de pagamento de 45, 60 ou 90 dias e seus respectivos atrasos de vários dias ou até semanas, enquanto na Alemanha o prazo de pagamento é de apenas 14 (clientes diretos) a 30 dias (agências de tradução). Sem falar das diferenças entre a Alemanha e os Estados Unidos (pagamento por cheque, imposto retido na fonte) e o Brasil (falta de regra sobre prazos de pagamento, mais burocracia devido às contribuições sociais).

A partir de certo momento, passei a me afastar desses clientes europeus complicados e concentrar os esforços da minha empresa na aquisição de clientes diretos locais dentro da própria Alemanha. O foco em clientes locais é vantajoso também sob um outro aspecto, pois quanto mais internacional uma empresa de tradução é, mais complicado fica administrar aspectos tais como o câmbio de moedas e entender as regras dos acordos de cooperação tributária entre os diversos países. Com os clientes locais, por sua vez, a burocracia enfrentada por um empresário é muito menor.

O foco da minha empresa de tradução em clientes locais se intensificou em 2012, depois que me tornei tradutor juramentado na Alemanha. No próximo artigo desta série, escreverei sobre um grupo especial desses clientes locais: a comunidade brasileira na Alemanha.

Fabio Said, tradutor na Alemanha
Sobre o autor
Fabio Said
Fabio Said é tradutor-intérprete jurídico de alemão, português e inglês, com diplomas obtidos na Alemanha, Inglaterra e Brasil. Profissional desde 1993, é especializado na burocracia Brasil-Alemanha e trabalha em tempo integral para tribunais, tabelionatos, órgãos públicos e pessoas particulares, com centenas de avaliações positivas.

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