Desde que me tornei tradutor juramentado na Alemanha, tenho trabalhado sobretudo para clientes pessoa física. E como só traduzo português brasileiro, meus clientes particulares geralmente são brasileiros natos ou têm alguma ligação particular com o Brasil. Através do contato com os clientes e do trabalho na tradução de seus respectivos documentos pessoais, com o passar dos anos pude observar de perto a comunidade brasileira na Alemanha, que é heterogênea e está em constante crescimento: segundo estatísticas atuais do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, a Alemanha tem a 8ª maior comunidade brasileira do mundo e a 5ª maior da Europa (à frente de países como França, Irlanda e Bélgica), com pouco menos que 150.000 membros.
Neste penúltimo artigo em comemoração dos meus 25 anos no mercado de tradução reúno algumas observações que fiz sobre os meus clientes que fazem parte da comunidade brasileira na Alemanha e tento responder a seguinte pergunta: Quem são esses imigrantes brasileiros na Alemanha?
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Brasileiros com dupla cidadania
Muitos brasileiros natos que vêm para a Alemanha já possuem uma nacionalidade europeia. Eles são sobretudo cidadãos italianos ou portugueses, pois a Itália e Portugal oferecem condições especialmente facilitadas para a naturalização de brasileiros cujos antepassados são originários desses países. A maioria subjetiva desses brasileiros com dupla cidadania vive no estado de Baden-Württemberg, sobretudo na região de Stuttgart, provavelmente devido às ligações com a forte comunidade italiana estabelecida nessa região e com os estabelecimentos gastronômicos mantidos por esses italianos.
Um grupo menor é formado pelos brasileiros de origem étnica alemã que têm passaporte alemão. Grande parte desses teuto-brasileiros tem origem familiar na região do Hunsrück, mas entre os meus clientes com esse perfil não pude identificar um foco geográfico específico desse grupo em território alemão. Em vez disso, eles costumam se estabelecer em áreas metropolitanas que já atraem outros tipos de imigrantes, tais como Berlim, Hamburgo, Colônia e Frankfurt – e também em qualquer cidade que ofereça melhores perspectivas de trabalho. Definitivamente, ninguém quer voltar para o Hunsrück!
Um grupo ainda menor – pelo menos em termos de clientes meus que têm esse perfil – são os brasileiros que já vivem há mais tempo na Alemanha e adquiriram a cidadania alemã não por origem familiar, mas sim, por exemplo, por meio de casamento. Nesse grupo, identifico dois grandes subgrupos geográficos, estabelecidos um na região de Colônia e outro no interior da Baviera.
Expatriados altamente qualificados
Um grupo especial da comunidade brasileira na Alemanha são os “expatriados” altamente qualificados, que vieram para cá não por causa de uma ligação familiar, mas sim por convite de uma empresa ou instituto de pesquisa.
Eles vivem sobretudo nas áreas metropolitanas de Frankfurt e Munique, mas também nos estados da Saxônia, Berlim ou Baden-Württemberg. Recebem assistência profissional de seus respectivos empregadores na mudança internacional e têm uma dificuldade de adaptação muito menor do que outros grupos de imigrantes brasileiros, mesmo que eles próprios ou seus familiares não dominem necessariamente o idioma alemão. Não é raro eles usarem o idioma inglês na comunicação cotidiana de trabalho.
Os integrados como pilares da comunidade brasileira na Alemanha
Os brasileiros que se deram bem na Alemanha – independentemente do motivo da migração – e se integraram à sociedade alemã são, por assim dizer, os pilares da comunidade brasileira na Alemanha.
Eles fundam grupos de apoio como a associação de mulheres Imbradiva, de Frankfurt, e se organizam em redes como o Conselho de Cidadãos Brasileiros em Colônia. Como parte do trabalho dessas organizações ou ainda na esfera privada como usuários de redes sociais (afinal, brasileiros não conseguem viver sem redes sociais), oferecem a outros imigrantes brasileiros uma quantidade enorme de informações que há aproximadamente 20 anos eram impossíveis de conseguir.
Além disso, de 20 anos para cá, os órgãos públicos e instituições de ensino da Alemanha acumularam bastante experiência com imigrantes brasileiros e por isso já têm condições de orientar melhor os novos imigrantes vindos do Brasil, de modo que estes, em algum momento, também passam a pertencer ao grupo dos integrados.
A segunda geração – ainda são brasileiros?
Em geral, os filhos dos imigrantes brasileiros são bem integrados, mas às vezes falam pouco ou nada de português. Eles, que cresceram tendo o alemão como primeira língua, ainda devem ser considerados brasileiros? O que é, afinal, ser brasileiro, se o Brasil é, ele próprio, um país de imigrantes formado por pessoas cujas famílias são originárias das mais diversas partes do mundo?
Não sei responder, mas, nas famílias teuto-brasileiras que moram na Alemanha, o fato de que pelo menos o pai ou a mãe é brasileiro(a) com certeza deve ser um aspecto significativo. Afinal, os imigrantes brasileiros trazem para a Alemanha não apenas seus sobrenomes e suas etnias, como também suas memórias de infância, um modo especial de ver o mundo e, claro, seu idioma materno, a língua portuguesa.
Se pelo menos um pouquinho disso tudo for repassado aos filhos binacionais, então esse esforço certamente contribui para diversificar um pouco mais a composição geral da sociedade alemã. E diversidade nunca faz mal a ninguém.
