Por serem ambas línguas europeias, o português e o alemão têm muitas semelhanças. Por outro lado, muitas delas acabam se revelando como semelhanças enganadoras – fenômeno conhecido na Linguística como falsos cognatos (ou “falsos amigos”). Refiro-me a palavras que são escritas e/ou pronunciadas de maneira semelhante, mas que apresentam significados distintos em cada uma das duas línguas. No decorrer de minha longa carreira como tradutor de alemão-português, tenho me deparado todos os dias com falsos cognatos.
Neste artigo escrito com base em árdua pesquisa, demonstrarei através de inúmeros exemplos extraídos tanto da linguagem cotidiana como da linguagem especializada que certas palavras das línguas alemã e portuguesa podem se assemelhar muito umas às outras, mas também apresentar grandes divergências em termos de significado.
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Falsos cognatos na linguagem cotidiana
É comum a ocorrência de falsos cognatos na linguagem cotidiana. Afinal, as línguas são entidades vivas e estão em transformação constante; além disso, a linguagem do dia a dia apresenta um desenvolvimento ainda mais acelerado, pois incorpora e adapta elementos de outras línguas de maneira muito mais palpável para um indivíduo comum. Dessa forma, as línguas alemã e portuguesa incorporaram muitas palavras do latim, às vezes por meio de idiomas intermediários, tais como o francês e o italiano. Porém, o vocabulário comum de todas essas línguas se desenvolve em ritmo desigual, gerando novos significados para as mesmas palavras. Abaixo estão alguns exemplos:
Clique ≠ clique
Gente jovem quer, custe o que custar, fazer parte de uma turma (em alemão: Clique). Porém, os jovens brasileiros recém-chegados à Alemanha não entendem o que isso tem a ver com cliques. Clicar onde? Embora a palavra alemã Clique seja emprestada do francês, língua com a qual o português tem muito mais semelhanças (por serem ambas línguas neolatinas, isto é, originárias diretamente do latim) do que com o alemão, no Brasil as pessoas não associam a palavra clique à turminha do colégio ou à famosa “panelinha”, mas sim ao clique de um mouse.
Demonstration ≠ demonstração
Uma coisa que existe nas ruas tanto da Alemanha como do Brasil são as manifestações. Afinal, elas fazem parte da democracia. A tradução alemã de manifestação é Demonstration, palavra que, no Brasil, tem um falso cognato: demonstração. Esta, como se sabe, não tem nada de político, mas apenas se refere a um sinal (de amor, respeito etc.) ou à argumentação/comprovação lógica de uma teoria.
irritieren ≠ irritar
O verbo alemão irritieren costuma causar confusão na cabeça dos brasileiros. É que a língua portuguesa tem uma palavra semelhante, irritar, que não tem o mesmo significado da palavra alemã. Irritieren não é irritar, mas sim confundir. Não se confunda, nem se irrite com essa diferença!
Lokal ≠ local
Na Alemanha, quando se fala de sair para jantar, frequentemente se usa a palavra Lokal para se referir a um restaurante ou café. Por sua vez, no Brasil, a palavra local diz respeito a locais em geral e não é usada no mesmo sentido específico que a palavra alemã. Isso não impede, claro, de um restaurante ser um bom local para realizar uma festa de aniversário.
Passage ≠ passagem
No Brasil, o uso mais comum da palavra passagem é nos transportes públicos. Na Alemanha, o falso cognato Passage se refere apenas a um trecho de um documento ou uma galeria de lojas (Ladenpassage).
realisieren ≠ realizar
Na Alemanha, a palavra realisieren é muito usada no sentido de perceber. No Brasil, por sua vez, o falso cognato realizar é mais usado no sentido de fazer, efetuar, concretizar. Esse sentido brasileiro de realizar também está presente na palavra alemã, mas na Alemanha ele pertence à linguagem culta. Curiosamente, o sentido alemão de realisieren (perceber) também está presente no Brasil, mas é usado na linguagem da juventude urbana. Ou seja: são palavras com escrita semelhante, pronúncia semelhante e sentidos iguais, mas que são usadas em registros de linguagem (níveis de formalidade) completamente diferentes.
Folge ≠ folga
Neste exemplo, a suposta semelhança é puramente fonética e parece não ter qualquer explicação. Na Alemanha, uma série da Netflix tem diversos Folgen. No Brasil, a palavra folga, que tem pronúncia semelhante, indica algo completamente diferente: um descanso do trabalho. De qualquer forma, essa enorme diferença de significado não impede ninguém de aproveitar uma folga para assistir a vários Folgen.
Indianer ≠ indiana
Hoje em dia, a palavra alemã Indianer é politicamente incorreta, mas às vezes ainda é usada. Ela tem uma pronúncia igual à palavra portuguesa para designar uma mulher da Índia (indiana), mas as semelhanças acabam por aí. A confusão aumenta ainda mais com o fato de que o alemão tem nomes distintos para designar populações indígenas da América do Norte e América do Sul. Os primeiros se chamam Indianer, enquanto os últimos são Indios. No Brasil, essa distinção etnológica não tem a menor importância: todos são apenas índios. Isso demonstra o efeito do período colonial na linguagem – e na consciência – das pessoas de ambos os lados do Atlântico.
Falsos cognatos na moda
Na moda, é comum o uso de estrangeirismos. Por esse motivo, é grande o perigo de palavras escritas e/ou pronunciadas de maneira semelhante em duas línguas não terem o mesmo significado. Portanto: cuidado com os falsos cognatos “da moda”! Exemplos:
Weste ≠ veste
Os hipsters adoram usar colete. Mas quem quer comprar um colete na Alemanha não pode confundir a tradução alemã de colete, Weste, com uma palavra da língua portuguesa muito semelhante, veste (mais usada no plural: vestes). A diferença é que vestes se referem a roupas em geral, enquanto Weste só serve mesmo para coletes.
Schal ≠ xale
Outra dificuldade é no termo alemão usado para se referir a um cachecol, peça de roupa que na Alemanha é super corriqueira e que no Brasil é considerada ultrachique. É que a tradução de cachecol, Schal, se assemelha muito ao termo brasileiro xale. No fundo, porém, é fácil distinguir um do outro: o xale cobre toda a parte superior do corpo, enquanto o Schal só cobre o pescoço.
Kappe ≠ capa
A diferença entre essas duas palavras de pronúncia semelhante é grande porque Kappe e capa são usadas em ocasiões com níveis de formalidade inteiramente diferentes. Kappe é o chapéu (especificamente, o boné), acessório usado em ocasiões esportivas e informais e que cobre apenas a cabeça. Bem diferente da palavra capa, que geralmente só aparece em filmes de fantasia ou filmes de época e cobre o corpo inteiro. O curioso é que o nome Chapeuzinho Vermelho faz referência a um chapéu, mas o personagem usa uma capa (com capuz).
Trikot ≠ tricô
Nas transmissões de jogos de futebol na tv alemã, é comum os locutores usarem a palavra Trikot para se referir à camisa dos jogadores. A primeira coisa que vem à mente com essa palavra é uma roupa de lã pesada, tricotada pela avó. Mas esse tipo de roupa é totalmente incompatível com jogos de futebol. Na realidade, Trikot não é tricô, mas sim malha. Portanto, quando se fala de Trikot no futebol, está se fazendo referência à camisa do time (em alemão: Mannschaftstrikot).
Karton ≠ cartão
Nas lojas de calçados alemãs, o vendedor costuma perguntar se o cliente quer levar o Karton. Essa palavra soa como cartão, mas tem um significado bem diferente. O vendedor está se referindo à caixa de papelão usada como embalagem do calçado. Ou seja, a pergunta é se você quer levar a embalagem junto ou prefere deixá-la na loja (para não ter de descartá-la depois). Não tem nada a ver com cartão, que seria Karte.
Falsos cognatos na imprensa
As semelhanças e diferenças entre duas línguas podem ser mais facilmente documentadas através de textos, especialmente em jornais e revistas, pois esses veículos refletem e registram o uso da língua no período em questão. Os falsos cognatos aparecem não apenas na linguagem jornalística em si, como também na linguagem usada para se referir à imprensa. Aqui estão alguns deles:
abonnieren ≠ abonar
Em alemão, a palavra abonnieren diz respeito ao ato de assinar um jornal ou revista. É, portanto, bem diferente do falso cognato abonar, que quer dizer garantir, afiançar, confirmar. Ou seja, você pode assinar (abonnieren) um jornal e, se gostar do conteúdo, pode também abonar sua qualidade.
inserieren ≠ inserir
Para se referir ao ato de anunciar um produto num jornal alemão, usa-se o verbo inserieren. Este tem pronúncia muito semelhante à do verbo português inserir, que, por sua vez, não é usado no contexto de anúncios de jornais. Dessa forma, os dois verbos são falsos cognatos.
Rubrik ≠ rubrica
Estas duas palavras têm dignificados completamente diferentes. Rubrik é uma seção de jornal (Esportes, Economia, Política). Especificamente, Rubriken são os títulos dessas seções. Por sua vez, a palavra portuguesa rubrica não é usada com relação à imprensa, mas sim a uma forma de assinatura simplificada.
revidieren ≠ revidar
Caso um artigo de jornal apresente erros graves ou o autor tenha mudado de opinião, é possível fazer uma revisão. É esse o significado do verbo alemão revidieren. O verbo português revidar, por sua vez, indica uma reação no sentido mais forte (resposta, crítica ou objeção). Dessa forma, o verbo alemão se refere a uma crítica interna, enquanto no verbo português a reação é externa.
Falsos cognatos na burocracia
Na linguagem da burocracia, que faz parte da linguagem culta, há uma grande frequência de falsos cognatos entre o português brasileiro e o alemão, pois o alemão burocrático é fortemente “romanizado”, isto é, utiliza muitas palavras originalmente latinas. Atenção: as semelhanças podem enganar!
Termin ≠ término
Os brasileiros na Alemanha se deparam muito frequentemente com esse par de falsos cognatos. É que eles estão sempre precisando comparecer a um órgão público para resolver alguma pendência ou buscar informações. Em alemão, isso se chama Termin. Parece término, mas qualquer um que já esteve num órgão da burocracia alemã sabe que um Termin está longe de ser o término da história. Às vezes, é difícil encontrar uma tradução para o substantivo Termin, razão por que os brasileiros na Alemanha costumam usar o termo alemão até nas conversas em português. Mas é possível traduzir o termo como horário ou hora marcada, ou então reformular a frase e usar um verbo em vez de um substantivo (comparecer ao órgão, marcar um horário).
Mappe ≠ mapa
Os clientes da Lingua Brasilis recebem suas traduções bem acondicionadas numa bela pasta. Em alemão, esse tipo de pasta se chama Mappe. A palavra alemã, portanto, não tem nada a ver com mapas.
notieren ≠ notar
Quando um funcionário de órgão público alemão pede para notieren, ele quer dizer que a pessoa deve literalmente escrever (anotar) uma informação. Por sua vez, o verbo português notar significa apenas observar ou prestar atenção de um modo geral. Aliás, esse verbo se parece com a palavra alemã Notar, que, esta sim, tem um correspondente em português que é um cognato verdadeiro e não falso: notário (que é uma palavra menos comum para se referir ao tabelião).
kommissarisch ≠ comissário
Ocasionalmente, no título de um funcionário de órgão público aparece a palavra kommissarisch. Isso tem o potencial de confundir os brasileiros recém-chegados, pois kommissarisch não tem relação com comissário (de polícia, de bordo), mas sim indica que a pessoa é um adjunto, suboficial ou simplesmente substituto.
Timbre ≠ timbre
No Brasil, os órgãos públicos emitem certidões com assinatura e timbre. Timbres são, portanto, carimbos ou chancelas. Existe também a expressão timbre de voz, na qual está contido o significado do falso cognato alemão Timbre, que diz respeito à qualidade de um som ou uma voz. Dessa forma, o Timbre alemão não tem nada a ver com carimbos, mas sim com sons.
Rente ≠ renda
Na Alemanha, Rente é uma aposentadoria, que os estrangeiros, não raramente, conseguem só depois de uma verdadeira odisseia burocrática de idas e vindas a órgãos públicos. Enquanto a palavra Rente diz respeito a um típico específico de renda (aposentadoria), a palavra portuguesa renda pode se referir também a renda salarial ou renda de aluguéis.
Falsos cognatos no contexto de trabalho
Na vida profissional, também há muitos falsos cognatos entre as línguas alemã e portuguesa. O diferencial é que, nesse contexto, o indivíduo que se confunde ou equivoca com um falso cognato pode não apenas se colocar em situação embaraçosa, como também causar problemas sérios. Na esfera profissional, assim como nas outras mencionadas acima, o latim é o denominador comum entre as duas línguas e, além disso, se pode observar com exatidão o resultado da evolução desigual do alemão e do português em relação à língua latina. Por exemplo, nos seguintes pares de palavras:
Praktikum ≠ prático
Em alemão, Praktikum é uma coisa que aparece no início de quase toda carreira profissional. O falso cognato do substantivo alemão Praktikum em português é prático, palavra que é usada apenas como adjetivo. As duas palavras têm em comum o fato de que se referem à prática de alguma coisa. A tradução de Praktikum em português é estágio, palavra que, por sua vez, é falso cognato da palavra alemã Etage, que se refere ao pavimento de um prédio.
repräsentieren ≠ representar
A rigor, o verbo alemão repräsentieren também quer dizer representar. Porém, quando ele é usado como intransitivo, isto é, sem mencionar a coisa que está sendo representada, seu sentido se distingue do sentido do verbo representar. Por exemplo, quando uma empresa ou instituição é representada socialmente por um funcionário ou dignatário, que, por isso, adquire um status especial em certas situações, isso se chama repräsentieren. Quando se quer dizer que um funcionário representa a empresa, literalmente, sem conotação de status especial, usa-se a expressão die Firma vertreten. Quando se quer dizer representar um papel, o correto seria usar um verbo diferente: eine Rolle spielen.
Kapazität ≠ capacidade
Em alemão, quando uma empresa tem condições de entregar um volume maior de determinado produto, fala-se que ela tem Kapazitäten (no sentido de recursos disponíveis de produção, pessoal, logística etc.). Outro exemplo é quando se fiz que um hospital tem capacidade limitada de leitos hospitalares. O diferencial em relação à palavra portuguesa capacidade é que Kapazität é usada sem complemento e as pessoas entendem de imediato sobre o que se está falando. Capacidade, por sua vez, precisa ter um complemento (capacidade de/para quê?).
Provision ≠ provisão
Ambos esses termos são usados na linguagem financeira. E aqui terminam as semelhanças entre eles. É que Provision se refere ao pagamento por um serviço de intermediação, enquanto provisão são as reservas financeiras da empresa para eventualidades futuras. A Provision alemã seria o mesmo que comissão, palavra que, aliás, é falso cognato de outro termo alemão: Kommission.
Radius ≠ rádio
Geralmente, uma fábrica faz entregas aos clientes dentro de uma determinada área geográfica. Em alemão, essa área se chama Radius, no sentido de perímetro ou distância. Ou seja, é o mesmo que a palavra portuguesa raio. Mas quando um brasileiro ouve a palavra Radius, pensa em rádio, que é uma coisa completamente distinta e por isso Radius e rádio são falsos cognatos. Por outro lado, rádio em alemão também é Radio.
summieren ≠ sumir
Em alemão, quando uma empresa tem cada vez mais dívidas, usa-se na linguagem culta o verbo summieren, no sentido de aumentar, acumular-se. Como se vê, isso não tem nada a ver com o verbo português sumir. Aliás, sumir é aquilo que o dono da empresa faz quando não consegue mais pagar as dívidas!
Falsos cognatos na educação
A linguagem do sistema educacional contém inúmeros exemplos de falsos cognatos entre as línguas alemã e portuguesa. Abaixo está uma lista relativamente longa:
Professor ≠ professor
Na Alemanha, Professor é um título profissional para determinada categoria de professores do ensino superior. Por sua vez, no Brasil, professor pode ser várias coisas: professor primário (em alemão: Schullehrer), professor de academia (em alemão: Fitnesstrainer), professor de música (em alemão: Musiklehrer), professor de curso livre (em alemão: Dozent), além, claro, de professor universitário (Hochschullehrer). Além disso, a palavra portuguesa professor, usada sozinha, não é um título profissional, mas sim a designação geral de um profissional da educação, mas que, assim como no alemão, também é usada como forma de tratamento (“Bom dia, professor!”).
absolvieren ≠ absolver
A palavra absolver, em português, é usada mais no sentido jurídico de inocentar e no sentido religioso como conceder perdão. Ela não é usada no contexto educacional, diferentemente da palavra alemã absolvieren. Esta significa, conforme o contexto, frequentar ou concluir um curso.
Klausur ≠ clausura
Em português, clausura é um sinônimo de convento. Em alemão, o falso cognato Klausur se refere a uma prova escrita. No fundo, as duas palavras, apesar de terem significados tão distintos, têm ambas um elemento de lugar fechado, confinamento; afinal, assim como no convento, geralmente não é permitido sair do local de realização da prova escrita.
Kollegium ≠ colégio
No Brasil, colégio é uma escola do Ensino Médio. Seu falso cognato em alemão é Kollegium, palavra que também é usada em educação, mas que não significa escola, mas sim um grupo de professores. É mais ou menos como o termo colegiado de professores, mas com a diferença de que esses professores são do ensino superior, não do Ensino Médio.
Etablissement ≠ estabelecimento
Nos históricos escolares brasileiros, é mencionado em qual escola o aluno estudou cada série. Nesse contexto, as escolas são chamadas de estabelecimentos – mais concretamente, de estabelecimentos de ensino. Quem usar o termo alemão Etablissement para se referir a esses estabelecimentos, pode se dar muito mal, pois Etablissement se refere a tipo bem distinto de estabelecimento: prostíbulo! Em tempo: a tradução de estabelecimento de ensino no contexto escolar é Bildungsanstalt ou simplesmente Schule.
Lizenziat ≠ licenciado
Esse par de palavras é interessante, pois as duas palavras podem ter significados iguais ou distintos a depender do país e da época. No Brasil, por exemplo, licenciado é o título acadêmico obtido após um curso de licenciatura para formar professores. Em Portugal, contudo, o mesmo título é equivalente ao título brasileiro de bacharel (obtido em cursos acadêmicos não voltados para a formação de professores). O significado brasileiro de licenciado, presente na palavra Lizenziat, era comum na Alemanha apenas na Idade Média e depois passou a ser usado apenas para concluintes de um curso de teologia. Na Suíça, por sua vez, o termo Lizenziat era usado no mesmo sentido que em Portugal (isto é, após cursos superiores sem ênfase em formação para o magistério), mas era equivalente ao atual título de mestrado (Masterabschluss), divergindo, portanto, do uso brasileiro e português de licenciado como concluinte de curso de graduação e não de pós-graduação. Todos esses desdobramentos históricos em cada um desses países parecem bastante complicados – e são mesmo! Este é apenas um exemplo entre muitíssimos termos especializados e desdobramentos históricos que um tradutor profissional comprometido (ao contrário de tradutores diletantes que não investem em capacitação contínua) é obrigado a dominar.
studieren ≠ estudar
O verbo alemão studieren se refere ao ato de estudar no ensino superior. No Brasil, por sua vez, o verbo estudar faz referência ao estudo de um modo geral, não apenas em instituições do ensino superior. Por esse motivo, os dois verbos são falsos cognatos. Aliás, o mesmo se aplica às palavras estudante e Student (aluno do ensino superior).
Gymnasium ≠ ginásio
Neste par de palavras também há diferentes desdobramentos históricos a depender do país. Na Alemanha, Gymnasium é, geralmente, um colégio com ênfase em matérias científicas de maior nível de exigência para preparar os alunos mais destacados para um futuro curso superior e é frequentado do 5º ao 12º ou 13º ano escolar. O ginásio brasileiro, por sua vez, era um tipo de escola sem qualquer ênfase em termos de conteúdos ou nível de exigência, frequentada por qualquer criança, independente do nível de desempenho, da 5ª à 8ª série. Além disso, ginásio pode ser também um ginásio de esportes (em alemão: Sporthalle). Ou seja, é mais um caso evidente de falso cognato.
Graduation ≠ graduação
No Brasil, o primeiro nível do ensino superior é a graduação. Quem traduz graduação no sentido educacional como Graduation está redondamente enganado, pois este termo alemão se refere apenas à divisão de uma escala de graus e não à cerimônia de formatura. Para traduzir graduação corretamente em alemão no sentido de cerimônia de formatura, usa-se outra palavra, que é um termo técnico da linguagem do ensino superior: Graduierung, enquanto graduação como tipo de curso pode ser grundständiges Studium ou então Erststudium.
Promotion ≠ promoção
Na Alemanha, Promotion é a terceira etapa do ensino superior, conduzindo à obtenção do grau de doutor. Ou seja, é o mesmo que doutorado ou doutoramento, no Brasil. Neste contexto, Promotion é falso cognato de promoção porque esta última palavra designa uma promoção no trabalho ou na escola, enquanto a primeira é usada apenas no sentido de curso de doutorado.
Habilitation ≠ habilitação
No sistema educacional alemão, Habilitation é uma qualificação especial para o exercício da docência superior, voltada para portadores do título de doutor. Isso também existe em Portugal com o nome de habilitação. No Brasil, porém, usa-se o termo livre-docência, enquanto a palavra habilitação é usada no sentido geral (por exemplo: habilitação para o casamento, habilitação para prosseguimento de estudos no ensino superior) e não tem relação com a Habilitation alemã. Além disso, em Portugal fala-se também de habilitações (no plural), que se referem à conclusão de um nível de ensino (habilitações literárias).
Falso cognatos na linguagem jurídica

Para finalizar, são listados abaixo alguns falsos cognatos que ocorrem na linguagem jurídica. Nessa área, o perigo de confusão é relativamente grande, pois ambos os sistemas jurídicos – do Brasil e da Alemanha – são, por assim dizer, herdeiros, do direito romano e, por esse motivo, têm seu ponto de partida na língua latina.
Paragraph ≠ parágrafo
O Paragraph é uma unidade de divisão do texto das leis alemãs, e suas subdivisões são chamadas Absatz. Por sua vez, as leis brasileiras são divididas em artigos, cada um com pelo menos um parágrafo. Por conseguinte, a tradução brasileira de Paragraph como parágrafo está errada e revela uma compreensão equivocada da língua portuguesa, bem como da prática jurídica brasileira. Em tempo: em português brasileiro, o Absatz como subdivisão de um Paragraph equivale ao parágrafo como subdivisão de um artigo.
Magistrat ≠ magistrado
Em algumas regiões da Alemanha, Magistrat é um órgão colegiado da administração municipal. Em contrapartida, a palavra portuguesa magistrado se referia antigamente a altos dignatários e hoje é usada apenas com relação a juízes. Portanto, Magistrat pertence ao âmbito do Poder Executivo e magistrado ao do Poder Judiciário.
Minister ≠ ministro
Os membros de um governo são chamados, na Alemanha, de Minister. No Brasil, ministro também é a designação de membros de um governo, mas somente do governo federal. Os membros de um gabinete de governo estadual são, por sua vez, chamados de secretários no Brasil e Minister na Alemanha. Assim, um Secretário da Agricultura (do Estado de …) seria, na Alemanha, o mesmo que Landwirtschaftsminister (des Landes …). Existe outro significado de ministro na linguagem jurídica, por exemplo neste título: Ministro do Supremo Tribunal Federal, que, em alemão, seria Richter am brasilianischen Bundesverfassungsgericht.
Exekution ≠ execução
Na linguagem jurídica, o termo alemão Exekution se refere à decapitação como forma de execução de uma pena. Esse significado também existe no Brasil. Porém, como a pena de morte não existe nem no Brasil nem na Alemanha, esse significado compartilhado entre as línguas alemã e portuguesa não é tão importante. O que pesa mais são as diferenças, pois, no Brasil, o termo execução é comumente usado em expressões tais como “execução contratual” ou “execução judicial de dívida”, e nenhum desses sentidos está presente na palavra alemã Exekution.
Minute ≠ minuta
No Brasil, minuta é geralmente um rascunho ou modelo de contrato, enquanto a palavra alemã Minute se refere apenas ao minuto como unidade de contagem de tempo.
Präsidium ≠ presídio
A palavra alemã Präsidium designa o órgão diretor de uma organização, tal como no termo Polizeipräsidium (Superintendência de Polícia). A palavra brasileira presídio, por outro lado, é usada no sentido de unidade penitenciária, que, em alemão, seria Justizvollzugsanstalt.
Jurist ≠ jurista
No idioma alemão, a palavra Jurist refere-se a qualquer pessoa que tem formação na área de Ciências Jurídicas. No Brasil, por sua vez, essas pessoas são chamadas de “bacharéis em Direito”. O termo brasileiro “jurista” é normalmente usado apenas para grandes estudiosos do Direito.
Qualifikation ≠ qualificação
Nas escrituras públicas, documentos processuais ou contratos brasileiros, os dados pessoais dos envolvidos geralmente são listados e registrados apenas no início. Essa é a chamada qualificação, isto é, o detalhamento de uma pessoa com nome completo, número do RG, CPF, estado civil, endereço etc. No restante do documento, se for necessário se referir à mesma pessoa, faz-se apenas uma referência aos dados já escritos no início, mencionado apenas que o indivíduo já foi qualificado. Esse sentido de qualificação não tem, portanto, nada a ver com a palavra alemã Qualifikation, que é apenas a qualificação no sentido de formação ou know-how.
Matrikel ≠ matrícula
Nos registros públicos brasileiros, a palavra matrícula aparece com bastante frequência. Ela se refere a o número de registro civil ou registro do imóvel. Tendo em mente esse significado, a palavra alemã Matrikel não é uma boa tradução para matrícula na linguagem jurídica ou burocrática, pois a palavra alemã geralmente se refere apenas à inscrição numa instituição de ensino superior (Matrikelnummer).
