Tradução na era digital – congresso para tradutores em Bonn

Artigo escrito por Fabio Said

Nos dias 22 a 24 de novembro de 2019, foi realizado o 3º Congresso Internacional da Federação Alemã de Intérpretes e Tradutores em Bonn, a apenas 30 minutos do meu local de residência – e, portanto, este foi o primeiro entre 9 congressos em 9 anos para o qual eu não tive de viajar centenas de quilômetros, nem atravessar o Atlântico.

O tema geral do congresso foi “Interpretação e Tradução na Era Digital”. Houve inúmeras palestras, minisseminários, workshops e discussões, quase sempre bastante voltados para a prática, sobre temas tais como Revolução Digital do mercado de tradução, Tradução Assistida por Computador (CAT), Inteligência Artificial (AI) e Tradução Automática Neural (NMT).

Fui um dos 1.000 participantes (quase todos, aparentemente, eram associados à instituição organizadora) e dei um seminário de 1,5 hora no terceiro dia de congresso. Abaixo está o meu relatório personalíssimo sobre o congresso, que, obviamente, não pode ser completo e se baseia somente em minhas próprias impressões e anotações:

Keynote sobre Revolução Digital do ramo da interpretação

Este ano, o congresso de tradução do BDÜ foi realizado na antiga sede do Parlamento Alemão – um local tão historicamente importante como arquitetonicamente grandioso. Já na chegada dos participantes, cujos idiomas de trabalho são tão variados, e também nas sessões do congresso ocorridas no salão plenário, tinha-se a impressão de que “algo importante” estava acontecendo.

A abertura do evento no salão plenário, sob o comando de Simon Diez, nos fez entrar no clima certo para os próximos 3 dias de congresso.

Após o discurso de abertura proferido por Norma Keßler, presidente do BDÜ, e o discurso de boas-vindas de Reinhard Limbach, um dos vice-prefeitos da cidade de Bonn, ouvimos a palestra keynote da Dra. Florika Fin-Hooijer, que comanda a Direção-Geral de Interpretação (também conhecida como Service Commun Intérpretation-Conférences, ou SCIC), órgão da Comissão Europeia.

A Diretora-Geral disse que as transformações tecnológicas não são mais ficção científica, mas sim já fazem parte do cotidiano. Ela contou ao público sobre o projeto Interpreters’ Digital Toolbox, que resultou da força-tarefa “SCIC Digital Task Force”, que, por sua vez, era uma iniciativa do SCIC para atender as demandas das transformações tecnológicas. Em seguida, ela aproveitou a oportunidade para esclarecer mal-entendidos em relação ao relatório do SCIC sobre interpretação simultânea à distância, que foi publicado no terceiro trimestre de 2019 e erroneamente visto por muitos profissionais da interpretação como uma espécie de “recomendação”. Foram apresentados também dois outros projetos do SCIC: Knowledge Center para troca de informações com o mercado de interpretação e o uso de serviços de reconhecimento de voz para apoio nas atividades de interpretação (inclusive com foco na variedade de idiomas, que é um dos preceitos da União Europeia). Em seu discurso, a Diretora-Geral enfatizou repetidamente que o SCIC – maior fornecedor de serviços de interpretação de conferências do mundo – acompanha com grande interesse a Revolução Digital no mercado de interpretação e deseja contribuir ativamente para essa revolução juntamente com outros participantes do mercado.

Problemas e impactos da tradução automática

As sessões seguintes se dividiram em 7 blocos temáticos simultâneos, de modo que havia algo para todos os gostos.

Como tradutor jurídico, assisti inicialmente à palestra de Patrik Mustu sobre tradução automática inglês-alemão de textos jurídicos. O palestrante mostrou problemas concretos do DeepL (abreviatura de Deep Learning), sistema de tradução automática atualmente mais moderno e por isso mesmo bastante popular, que foi aclamado pela imprensa alemã como “o primeiro tradutor automático que nos faz cair o queixo”. Os problemas estão relacionados, por exemplo, com a maneira com que o DeepL lida com os seguintes aspectos da linguagem jurídica: termos especializados (damages, equity etc.), expressões latinas (prima facie, quantum meruit), advérbios que soam arcaicos (hereto, herein) bem como os polinômios (any and all, by and between).

É verdade que o DeepL pode ser útil para se obter um primeiro rascunho de uma tradução, desde que seja esclarecida de antemão a questão espinhosa da proteção de dados em sistemas de tradução automática, mas o programa simplesmente não consegue substituir tradutores humanos no caso de textos jurídicos de alto nível, porque o algoritmo não entende a enorme complexidade semântica, estilística e sintática de tais textos e, portanto, não é capaz de vertê-la corretamente.

Palestra de Patric Mustu: Problemas da tradução automática jurídica alemão-inglês
Palestra de Patric Mustu: Problemas da tradução automática jurídica alemão-inglês

No segundo bloco, decidi assistir a uma mesa-redonda sobre “A profissão de tradutor em tempos de tradução automática“. Os membros da mesa-redonda eram Norma Keßler, como presidente da Federação Alemã de Tradutores; Christian Weih-Sum (Across), como representante dos fabricantes de programas profissionais de tradução; Michael Fritz, como representante da Sociedade de Profissionais de Comunicação Técnica (tekom); Hans Pich (RWS Language Solutions), como representante das empresas de tradução; bem como um professor da Universidade de Mainz que estava substituindo uma colega. A discussão foi mediada por Dra. Carmen Canfora e Angelika Ottmann.

Foram discutidas, entre outras, as seguintes questões: Em que medida a segurança de dados é levada em consideração no desenvolvimento de programas de tradução? Será que tradutores estariam sofrendo de uma “sobrecarga cognitiva” diante de tantas ferramentas de produtividade disponíveis no mercado? De que maneira as associações de tradutores podem ajudar seus associados a atravessarem a transformação tecnológica? Como aprimorar a colaboração entre autores de textos técnicos e tradutores na criação de documentações técnicas multilíngues? O público participou da discussão animada, tal como no exemplo de uma colega que expressou o desejo de tirar proveito, como tradutora freelancer, do desenvolvimento tecnológico na área de tradução automática através do uso de um mecanismo de MT programado com base nos dados de traduções que ela mesma produziu ao longo dos anos.

No último bloco do dia, optei por me informar sobre a situação atual da Revolução Digital do ramo jurídico e no Judiciário alemão, bem como seus impactos para os tradutores que atuam nessa área. Foram 3 minipalestras:

Palestra de Natascha Dalügge-Momme: Legal Tech na área de tradução
Palestra de Natascha Dalügge-Momme: Legal Tech na área de tradução

Na primeira delas, Natascha Dalügge-Momme nos ofereceu uma introdução à área dos serviços jurídicos digitais – desde os seus primórdios, na informática jurídica de cunho mais científico, até a atual Legal Technology (Legal Tech), que é desenvolvida por empresas de serviços. Trata-se o uso de tecnologias modernas para facilitar o trabalho de profissionais do Direito e simplificar processos jurídicos, executando tarefas tais como a administração e elaboração de documentos jurídicos, inclusive com ajuda de Inteligência Artificial. Este último desdobramento, bastante controverso, concretiza-se, por exemplo, quando algoritmos de um serviço digital aplicam uma norma jurídica automaticamente ou elabora um contrato também de maneira automática, sem a intervenção de um profissional do Direito. Durante essa palestra altamente interessante, foram discutidas também outras duas aplicações da Legal Tech: smart contracts (contratos autoexecutáveis, tais como em mecanismos de resolução automática de conflitos) e chat bots (aconselhamento jurídico automatizado).

Em seguida, Holger Knoblauch falou sobre os impactos da Legal Tech e da Revolução Digital no ramo do Direito para os tradutores jurídicos. Os motivos do uso cada vez mais acelerado de soluções digitais no ramo jurídico são a crescente pressão sobre preços, o próprio interesse dos escritórios de advocacia em tecnologias inovadoras, bem como a pressão competitiva resultante do fato de empresas de informática estarem oferecendo soluções de Legal Tech diretamente aos clientes dos advogados. Isso afeta tanto processos administrativos como aqueles relacionados com conteúdos. Entretanto, ainda não está sendo usada a Inteligência Artificial propriamente dita (geral), mas sim algoritmos avançados que têm o objetivo de, por exemplo, ajudar no aconselhamento jurídico ou no levantamento e análise de fatos juridicamente relevantes, de modo que deixaria de haver necessidade de criar e atualizar manualmente documentos jurídicos, sobretudo contratos. Para tradutores, isso levaria à eliminação dos projetos de tradução clássicos, bem como à desvalorização do relacionamento existente entre tradutores e escritórios de advocacia. Contudo, esse desdobramento traz também uma oportunidade, pois as empresas de informática atuantes na área de Legal Tech e os escritórios de advocacia inovadores precisam de tradutores humanos na preparação de conteúdos multilíngues que alimentarão os enormes volumes de dados dos sistemas de Inteligência Artificial.

Palestra de Holger Knoblauch: Transformação digital do ramo jurídico e seus impactos para tradutores jurídicos
Palestra de Holger Knoblauch: Transformação digital do ramo jurídico e seus impactos para tradutores jurídicos

Por fim, Evangelos Doumanidis deu uma palestra sobre a situação atual da Justiça Eletrônica alemã – com muitas dicas práticas sobre como tradutores podem participar desse novo sistema. Em primeiro lugar, os tradutores devem providenciar um cartão de assinatura digital e o respectivo dispositivo leitor de tais cartões e, em seguida, se informar junto ao tribunal em questão se já é possível enviar traduções por via eletrônica; em caso positivo, é preciso converter a tradução, o ofício e a fatura para o formato PDF/A, incluir uma assinatura eletrônica qualificada na tradução e enviar tudo pelo sistema de e-mail DE-Mail ou EGVP (caixa postal eletrônica de órgãos judiciários e administrativos alemães). Para intérpretes, existe a possibilidade de obter acesso digital aos autos após registrar-se com um SAFE-ID. O sistema da Justiça Eletrônica será obrigatório a partir de 01/01/2022 em todos os estados alemães – e os profissionais liberais que trabalham com o Judiciário alemão, inclusive advogados e tradutores juramentados, terão de se adaptar à nova realidade.

2º dia: Transformações no mercado, proteção de dados, aquisição de clientes

Keynote: Situação atual e futuro do mercado de tradução

No sábado, 23 de novembro, os participantes do congresso reuniram-se novamente no salão plenário para a palestra keynote de Florian Faes, diretor executivo da empresa suíça de análise de mercado e consultoria Slator, sobre a situação atual do mercado de tradução e suas perspectivas para os próximos anos.

Segundo estimativas da Slator, o mercado de tradução gera um volume de negócios anual de 23,2 bilhões de dólares americanos. Ele divide-se em quatro categorias mais ou menos definidas: as “superagências” globais com entregas 24 horas por dia; as “líderes”, isto é, empresas de tradução com forte base regional e faturamento mínimo de US$ 25 milhões; as empresas “emergentes” com faturamento de US$ 5-25 milhões; bem como pequenas e microempresas ou profissionais autônomos com um faturamento anual de até 8 milhões de dólares.

O maior nível de crescimento tem sido observado em empresas que participaram de fusões. Atualmente, há bastante atividade de pesquisa sobre tradução automática em universidades e empresas, razão por que tem havido um avanço estrondoso nessa área desde 2016. Diante dos preços em queda, muitos participantes do mercado se veem forçados a utilizar sistemas de tradução automática para aumentar a produtividade. Quem ganha mais com essa tendência são as superagências e os desenvolvedores de plataformas de serviços de tradução baseados na nuvem.

Estima-se que o mercado fará uma transição de preços por palavra para preços por hora. Para a maioria dos especialistas na área de Inteligência Artificial, a tradução é um “hard problem” e por isso as empresas que desejarem oferecer traduções de primeira categoria continuarão necessitando, também no futuro próximo, de profissionais da tradução especializados em determinadas áreas do conhecimento.

Palestra inaugural de Florian Faes (Slator): Perspectivas para o mercado de tradução
Palestra inaugural de Florian Faes (Slator): Perspectivas para o mercado de tradução

União de forças para melhores chances no mercado

No bloco temático seguinte, houve um painel de discussão sobre o possível papel da Federação Alemã de Tradutores com intermediária de mercado para seus associados.

O ponto de partida foi a constatação de que, diante das transformações no mercado de tradução, cada vez mais traduções são contratadas através de licitações nas quais os tradutores freelancers muitas vezes não têm a menor chance ou dos quais somos até mesmo excluídos – daí a pergunta da moderadora Norma Keßler: O BDÜ deveria ajudar seus associados nessa questão, fundando, por exemplo, uma espécie de cooperativa de tradutores?

Ralf Lemster, um dos vice-presidentes da federação, é a favor, pois, segundo ele, o modelo do “one-man show” está ultrapassado e nós não podemos deixar o mercado à mercê dos capitalistas de risco. Para Wolf Baur (tradutor técnico freelancer), a federação não pode assumir o papel de intermediária pois, nesse caso, ela estaria concorrendo com seus próprios associados. Claire Labigne, diretora executiva de uma empresa de serviços de interpretação, falou sobre sua experiência prática na fundação de uma plataforma comercial e automatizada para contratação de intérpretes, na qual somente membros da Divisão de Intérpretes de Conferência do BDÜ são admitidos.

O público expressou, entre outros, o receio de que fundar uma cooperativa como parte do BDÜ seria juridicamente difícil em razão do conflito de interesses, bem como a sugestão de fazer uma atualização tecnológica da função de busca de tradutores no site do BDÜ em vez de fundar uma cooperativa ou outra forma de intermediação de mercado no âmbito da federação.

Proteção de dados: guia de recomendações, visão geral, armadilhas frequentes

Palestra de Stefanie Bogaerts e John O'Shea: Orientações sobre proteção de dados para o mercado de tradução
Palestra de Stefanie Bogaerts e John O’Shea: Orientações sobre proteção de dados para o mercado de tradução

À tarde, assisti à série de palestras sobre o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD). Na primeira palestra, John O’Shea (membro da diretoria da FIT, Fédération Internationale des Traducteurs) e Stefanie Bogaerts (diretora-presidente da fundação Fundacja FreeLING) falaram sobre o projeto da FIT de elaborar um guia unificado de recomendações para seus associados na Europa, visto que, atualmente, existe uma infinidade de recomendações diferentes sob diversos pontos de vista que não contemplam especificamente a realidade do mercado de tradução. Esse guia é tanto mais importante quando se considera o aumento da quantidade de sanções pecuniárias por conta de violações do RGDP, em vigor desde maio de 2018, afetando não só grandes empresas como também cada vez mais pequenos empresários.

Em seguida, Dra. Monica Marchetto nos deu uma visão geral da proteção de dados na área de marketing online, sobretudo marketing direto com ações personalizadas baseadas em dados já coletados previamente.

A isso seguiu-se a apresentação de Ahmet Yildirim sobre armadilhas comuns entre tradutores e intérpretes no quesito proteção de dados. Estas foram algumas recomendações do palestrante:

  • Usar dados obtidos em cartões de visita é permitido, desde que isso tenha relação com o interesse comercial comum de ambas as partes – ou seja, não para fins alheios à atividade profissional em questão.
  • Mistura de uso particular e profissional do escritório: permitido apenas se as pessoas alheias à atividade tiverem seu acesso aos dados da empresa bloqueados por meio, por exemplo, de senha de proteção para o computador.
  • E-mails de massa a amigos/conhecidos/parceiros contendo dados sensíveis e através de CC (modalidade na qual os endereços de todos os destinatários são visíveis) em vez de BCC (o destinatário vê apenas seu próprio endereço de e-mail): altamente problemáticos.
  • Uso do WhatsApp para comunicação profissional: perigoso, pois os dados são armazenados nos EUA e compartilhados com o Facebook, que é a empresa dona do WhatsApp.

Aquisição de clientes

No último bloco temático do dia, houve 3 palestras sobre aquisição de clientes. A palestra do Dr. Phillip Mann e Thomas Hackenberg, ambos funcionários da empresa Robert Bosch GmbH, foi sobre como são executados os projetos de tradução da empresa e qual é o papel desempenhado pelo Departamento de Compras na seleção de fornecedores de tradução.

Durante o tempo todo, os dois palestrantes falaram sobre qualidade: as traduções, segundo eles, têm que ser fluentes, precisas, tecnicamente impecáveis, culturalmente corretas etc., e não há tempo a perder com traduções de qualidade inferior. Muito de passagem, foi mencionado que os tradutores que trabalham para a empresa só são contratados por intermédio de grandes agências de tradução – afinal, os tradutores freelancers muitas vezes não têm chance alguma nesse segmento do mercado.

Como tradutor freelancer que já teve muitas experiências negativas com os processos internos e as condições de pagamento catastroficamente ruins nas grandes agências de tradução e, por isso mesmo, abandonou esse segmento do mercado, assisti à apresentação com ouvidos bastante críticos. Continuo com a impressão de que os clientes finais (neste caso, a empresa Robert Bosch GmbH) não fazem a menor ideia do que se passa nos bastidores das grandes agências de tradução e sequer estão interessados em saber mais sobre o assunto. Para eles, o que importa são a “qualidade” e, claro, o preço, que obviamente tem de ser o mais baixo possível. Dessa forma, eu responderia a pergunta feita pelos palestrantes – “O Departamento de Compras é o inimigo natural dos tradutores?” – com um claro “sim”. Afinal, o cliente pode prejudicar todo um ramo profissional se ignorar o modo como são realizados os processos que ele próprio terceiriza e também incentivar a pressão de baixa de preços. Além disso, cooperação não significa apenas fornecer “qualidade” de acordo com especificações, mas também cooperar em pé de igualdade, como parceiros genuínos, o que não parece ser o caso aqui.

A segunda palestra – de Diana Bading – apresentou sugestões de serviços adicionais que profissionais da tradução podem oferecer para continuar vivendo das habilidades linguísticas que aprenderam, apesar da pressão sobre preços que impera atualmente no mercado de traduções e do uso cada vez mais frequente de soluções de tradução automática. Os serviços adicionais sugeridos são: correção de textos de partida, venda e manutenção de glossários e guias de estilo, bem como coaching linguístico – todas são tarefas que não se afastam muito da atividade de traduzir e que podem ser interessantes fontes de renda.

Na última palestra, Katharina Hauptmann falou sobre o valor do serviço avaliado pelo cliente como ponto de partida para atividades de marketing. Ela explicou que o valor do serviço é subjetivo, relativo e situacional, podendo ser determinado com base em feedback do cliente e em pesquisas de opinião. Também foi explicada a relação entre o valor do serviço para o cliente e os 7P do chamado mix de marketing estendido (product, price, promotion, place, people, process, physical). As explicações teóricas foram complementadas com dicas práticas de implementação, dando aos participantes bastante inspiração para futuras ações de marketing.

3º dia: Processos digitais da gestão de clientes, Inteligência Artificial e pós-edição

Processos digitais da gestão de clientes numa empresa de tradução digital

Iniciei o terceiro do congresso de tradução do BDÜ, 24 de novembro, com o meu próprio minisseminário sobre “Processos digitais aplicados ao relacionamento com clientes particulares de tradução juramentada“. Em 1,5 hora, discuti estratégias para lidar com clientes particulares – que há anos têm sido meu principal grupo de clientes – de modo produtivo e moderno, demonstrando ao público que tradutores juramentados podem ter sucesso na carreira não só trabalhando para órgãos públicos e agências de tradução e que os clientes particulares são vistos injustamente no mercado de tradução como uma categoria de clientes indesejada. Os processos que se prestam à aplicação da tecnologia moderna são:

  • marketing,
  • solicitação de orçamento,
  • obtenção de consentimento segundo as leis de proteção de dados,
  • orçamento e faturamento,
  • comunicação com clientes e
  • gestão de pós-vendas.

Em meu seminário, apresentei diversas ferramentas que automatizam esses processos e, dessa forma, reduzem o tempo que um tradutor juramentado gasta com tarefas administrativas e na prestação de orientações a clientes, o que, por sua vez, leva a um aumento da produtividade no escritório de tradução.

Obstáculos do DeepL na tradução jurídica

Em seguida, assisti ao minisseminário de Corinna Schlüter-Ellner sobre “Obstáculos do DeepL na tradução jurídica“. O seminário foi especificamente voltado para a tradução espanhol-alemão, mas (graças aos testes de tradução realizados pela palestrante e explicados de maneira bastante clara) continha informações úteis para tradutores que trabalham com qualquer par de idiomas.

Por exemplo: DeepL utiliza os termos especializados errados devido a diferenças entre os dois ordenamentos jurídicos (país de partida e país de chegada); as diferenças entre linguagem geral e linguagem especializada também são frequentemente ignoradas ou observadas não uniformemente; o fato de a linguagem jurídica mudar com o passar do tempo (exemplo: termos espanhóis quiebra/concurso) muitas vezes tampouco é considerado pelo DeepL.

Os testes de tradução que a palestrante realizou no terceiro trimestre de 2019 demonstram que esse sistema de Tradução Automática Neural, contrariando uma afirmação comum, nem sempre aprende com o contexto. Dessa forma, o DeepL comete erros graves que limitam bastante seu uso em traduções jurídicas, tais como:

  • distorções de sentido,
  • termos especializados incorretos,
  • não-observância de convenções estilísticas,
  • uso incoerente de terminologia técnica e
  • falta de compreensão de estruturas frasais complexas.

Ao repetir os testes alguns meses depois, a palestrante chegou à clara constatação de que o sistema de Tradução Automática Neural do DeepL não aprendeu com os erros e sugestões de melhora de traduções – ou seja, estamos muito longe da “inteligência” ou do “aprendizado profundo” sugeridos pelo nome dessa tecnologia!

Conclusão da palestrante: Não se deve deixar enganar pelas frases muitas vezes fluidas geradas pelo DeepL, mas sim dedicar um cuidado redobrado à revisão de textos traduzidos automaticamente.

Pós-edição: competências, formação, etapas de trabalho preliminares

O último bloco temático do congresso foi sobre o tema atualíssimo da pós-edição, ou seja, revisão humana de traduções automáticas. Foram 3 minipalestras.

Na primeira palestra, Dra. Carmen Canfora e Dra. Jean Nitzke falaram sobre as competências de pós-editores de traduções automáticas. A pós-edição exige não apenas competências técnicas (tais como linguísticas, terminológicas e de revisão), como também conhecimentos sobre os processos envolvidos na tecnologia da tradução automática. Além disso, os pós-editores devem ser capazes de (e autorizados a) decidir se um texto se presta ou não a ser traduzido automaticamente. A base dessa decisão é uma avaliação do risco, da confidencialidade, do grau de disseminação e do ciclo de vida da tradução planejada.

Palestra de Dra. Carmen Canfora e Jean Nitzke: Competências de pós-editores
Palestra de Dra. Carmen Canfora e Jean Nitzke: Competências de pós-editores

Em seguida, Chuan Ding apresentou a base teórica e os resultados de um estudo realizado entre pós-editores em formação, no qual foram medidas a eficiência e a taxa de erros da pós-edição, inclusive por meio das tecnologias de keystroke logging, mouse tracking e eye tracking.

Por fim, Verena-Kristin Birkel falou sobre pré-edição, ou seja, a análise e preparação de textos de partida a serem traduzidos automaticamente. As causas de erros mais comuns na tradução automática são, por exemplo, segmentação errada, utilização de acrônimos e figuras de linguagem, omissão de artigos e preposições, bem como falta de uniformidade terminológica no texto de partida. Com a pré-edição (oferecida por tradutores como serviço de consultoria), reduz-se o tempo gasto com a pós-edição, permite-se uma automação total do processo de tradução e produz-se uma maior legibilidade tanto do texto de partida como do texto de chegada. Tudo isso só é possível com a participação de pós-editores qualificados – demonstrando que o fator humano ainda é crucial.

Perdi grande parte da cerimônia de encerramento porque estava trocando ideias com colegas. Mas estive lá por tempo suficiente para presenciar os agradecimentos à equipe organizadora e aos inúmeros voluntários, que receberam um merecido aplauso de pé.

Conclusão: Informações especializadas para enfrentar o futuro

O congresso Tradução e Interpretação 4.0 foi realizado no World Congress Center Bonn, antiga sede do Parlamento alemão
O congresso Tradução e Interpretação 4.0 foi realizado no World Congress Center Bonn, antiga sede do Parlamento alemão

O congresso de tradução do BDÜ deste ano preencheu e até superou em todos os sentidos todas as minhas expectativas. Num congresso dessa dimensão, é difícil se concentrar no aprendizado diante do fascínio do networking com os colegas, mas desta vez eu realmente aprendi muito. Talvez porque eu já tinha estudado exaustivamente a programação do congresso. Ou ainda devido à altíssima qualidade dos palestrantes. Ou porque eu já tinha feito amizade com muitos dos colegas presentes (que conheci em encontros de tradutores e seminários na Alemanha ou congressos nos EUA, Hungria e Itália).

Claro que existe espaço no mercado para todos os tipos de congressos de tradução, dos quais já vivenciei todos: aqueles voltados para o marketing, para diversão, os científicos, estudantis, os dedicados ao público em geral (e, portanto, de cunho geral) – mas aqueles que têm ênfase no aperfeiçoamento profissional são os meus preferidos. O congresso BDÜ de 2019 se enquadra exatamente nessa categoria.

Agora, pretendo aplicar as informações especializadas adquiridas em Bonn ao planejamento do meu futuro profissional e mergulhar de vez na era de Revolução Digital.

Quem não pôde estar presente ao congresso “Tradução e Interpretação 4.0” tem a possibilidade de ler a maior parte dos conteúdos discutidos em Bonn nos Anais do congresso, que está disponível para compra no site da editora do BDÜ.

Dados do evento

Tipo de eventocongresso de três dias em idiomas alemão e inglês
TítuloFachkonferenz “Übersetzen und Dolmetschen 4.0 – Neue Wege im digitalen Zeitalter”
[Congresso “Tradução e Interpretação 4.0 – Novos Rumos na Era Digital”]
Instituição organizadoraFederação Alemã de Tradutores e Intérpretes (BDÜ), seção regional da Renânia-Palatinado
Coordenadores / Palestrantesdiversos
Data22-24 de novembro de 2019
Local do eventoWorld Conference Center • Platz der Vereinten Nationen 2 • 53113 Bonn • Alemanha
Resumo dos temas• “Tradução Automática Neural inglês-alemão de textos jurídicos” – palestra de Patrick Mustu
• “A profissão de tradutor na era da tradução automática” – painel de discussão com a participação da presidente do BDÜ, Norma Keßler
• “Revolução Digital no ramo jurídico: Legal Tech, Justiça Eletrônica” – palestras de Natascha Dalügge-Momme, Holger Knoblauch e Evangelos Doumanidis
• “Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados: diretrizes europeias para a proteção de dados e marketing online e seus impactos para o mercado de tradução” – palestras de John O’Shea, Stefanie Bogaerts, Dra. Monica Marchetto e Ahmet Yildirim
• “Aquisição de clientes: colaboração com o Departamento de Compras, serviços adicionais, valor subjetivo de serviços” – palestras de Philip Mann, Thomas Hackenberg, Diana Bading e Katharina Hauptmann
• “Processos digitais aplicados ao relacionamento com clientes particulares de tradução juramentada” – minisseminário de Fabio Said
• “Obstáculos para o DeepL na tradução jurídica” – minisseminário de Corinna Schlüter-Ellner
• “Pós-edição de traduções automáticas: competências, formação, estratégias” – palestras de Jean Nitzke, Dra. Carmen Canfora, Chuan Ding e Verena-Kristin Bickel
Fabio Said, tradutor na Alemanha
Sobre o autor
Fabio Said
Fabio Said é tradutor-intérprete jurídico de alemão, português e inglês, com diplomas obtidos na Alemanha, Inglaterra e Brasil. Profissional desde 1993, é especializado na burocracia Brasil-Alemanha e trabalha em tempo integral para tribunais, tabelionatos, órgãos públicos e pessoas particulares, com centenas de avaliações positivas.

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