A primeira frase que costumo ouvir quando digo a alguém que sou tradutor é: “Você não tem medo de a profissão de tradutor acabar em breve por causa de avanços tecnológicos na tradução automática e Inteligência Artificial?” Pergunta típica de leigos que pensam que tradutores só fazem “traduzir”.
Nesta última parte da série de artigos que comemoram os meus 25 anos no mercado de tradução, responderei essa pergunta e farei algumas ponderações a respeito do futuro dos tradutores humanos.
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Tradutores humanos e evolução tecnológica desde 1993
Primeiramente, uma comparação: afinal, o que mudou na minha profissão entre 1993 (ano em que iniciei minha carreira de tradutor humano) e hoje? Minha resposta sem pestanejar é: o que mudou no ofício de tradutor foi sobretudo a tecnologização e a transformação digital.
Em 1993, para pesquisar termos especializados, eu costumava ir a diversas bibliotecas universitárias e tinha de anotar tudo de maneira cansativa e manual (naquela época, laptops ainda eram muito caros), para em seguida utilizar essas anotações nas traduções propriamente ditas. Hoje em dia, o trabalho de pesquisa é feito num piscar de olhos com ajuda do Google e do meu enorme banco de dados de documentos que eu mesmo traduzi em 25 anos de experiência profissional.
Programas profissionais de tradução
Além disso, hoje, todas as minhas traduções são feitas com um programa profissional de gestão de traduções, não simplesmente com o Microsoft Word, como no início da minha carreira (muito menos com a máquina de escrever ou à mão, como durante minha formação de tradutor no final dos anos 1980). A evolução dos programas profissionais de tradução é acelerada, sempre adicionando novas funcionalidades com o objetivo de tornar o trabalho mais rápido, mais produtivo e mais focado em qualidade.
Hoje em dia, é impossível imaginar o ato de traduzir profissionalmente sem essas ferramentas. Claro que as competências centrais dos tradutores humanos ainda existem, mas sempre tendo a máquina como ajudante imprescindível. Creio que a mesma coisa acontece também com outras profissões, tais como arquitetos e engenheiros.
Habilidades tecnológicas
A tecnologização da profissão de tradutor significa também que tradutores freelancers são obrigados a possuir cada vez mais habilidades e conhecimentos que há 25 anos não eram exigidos, tais como:
- conhecimentos de HTML, CSS, PHP, XML e Java não só para saber lidar com tags em projetos de localização, como também para a elaboração ou, pelo menos, manutenção de um site conforme os padrões atuais;
- marketing online, inclusive estratégias de marketing de conteúdo para atrair novos clientes ou, pelo menos, fazer trabalho de relações públicas através de redes sociais;
- uso de sistemas administrativos integrados no escritório para rapidamente elaborar orçamentos e faturas, bem como para administrar dados de clientes e informações tributárias;
- conhecimentos de medidas de segurança informática para proteção contra ataques cibernéticos;
- bem como acompanhamento sistemático de informações de mercado através de publicações digitais.
Tradução, um mercado de concorrência acirrada
Com a evolução das ferramentas tecnológicas para tradutores humanos, mudaram também as relações de mercado: no caso das línguas mais comuns, a concorrência no mercado de tradução sempre foi bastante acirrada, mas a transformação digital a intensificou muito mais por permitir uma maior disponibilidade de mão de obra. Quanto mais tradutores humanos disponíveis houver para determinado par de idiomas, mais difícil será para o profissional se estabelecer no mercado de tradução.
A consequência disso é que muitos tradutores acabam concorrendo uns com os outros meramente com base no preço. E quando há clientes que consideram o preço como fator decisivo, cria-se um círculo vicioso dos quais muitos tradutores jovens não conseguem mais escapar.
Afinal, é ingênua a ideia de oferecer preços baixos no começo da carreira para depois “ir aumentando”, pois os clientes não são idiotas: quando um tradutor que antes oferecia preços baixos passa a cobrar preços mais altos, eles simplesmente procuram outro que seja mais barato.
Os colegas que vendem seus serviços a preço de banana em vez de investir em especialização e agregar um claro valor à sua marca não percebem que com isso eles estão prejudicando não só seus concorrentes como também, no longo prazo, seu próprio negócio e também o mercado de tradução como um todo.
Paridade humana na tradução automática
O sucesso da tradução automática (MT), frequentemente alardeado pela mídia, baseia-se no conceito de paridade humana, isto é, na qualidade subjetiva da tradução automática em relação à tradução humana. A cada nova evolução tecnológica da tradução automática – desde a MT baseada em regras até a MT neuronal passando pela MT estatística – a qualidade subjetiva da tradução aumenta, e as pessoas esperam saltos de qualidade cada vez maiores.
Todavia, até agora, esses saltos de qualidade ainda não foram suficientes para alcançar a paridade realmente perfeita. A título de exemplo, é sabido que o sistema de tradução automática da DeepL gera traduções com gramática quase perfeita, mas o sentido das frases nem sempre é reproduzido corretamente.
Traduções com Inteligência Artificial
As mais recentes aplicações na área de Inteligência Artificial também não atingiram ainda a qualidade de uma tradução humana. Sabe-se, por exemplo, que os textos gerados pela IA contêm mentiras ou pelo menos incoerências factuais que só podem ser detectadas após uma análise profunda.
Para leigos, as traduções automáticas são boas – mas somente porque eles são leigos, não possuem conhecimentos aprofundados da língua estrangeira em questão e não são treinados para fazer uma análise profunda de tais textos e da tecnologia por trás deles (fenômeno conhecido como “incompetência digital“). Isso, claro, traz um enorme perigo e está acontecendo não apenas no mercado de tradução, como também em muitas outras áreas nas quais é utilizada a Inteligência Artificial.
Além disso, a qualidade da tradução automática ainda depende muito do par de idiomas em questão, de modo que traduções automáticas alemão-inglês têm uma melhor qualidade do que alemão-português. Pares de idiomas para os quais já está disponível uma grande quantidade de dados (e traduções!) são mais propícios a serem processados em sistemas de tradução automática. Isso significa que a qualidade das traduções automáticas futuras continuará dependendo da qualidade das traduções humanas existentes.
Portanto, o ser humano ainda é o padrão usado para medir o sucesso da máquina!
Tradutores humanos especializados
Suponhamos que a qualidade das traduções automáticas será cada vez melhor para um número cada vez maior de pares de idiomas, não apenas para os idiomas mundialmente mais comuns. Neste caso, os tradutores de fato se tornarão redundantes.
Por outro lado, as pessoas não precisam de um tradutor humano para todo tipo de texto.
Por exemplo, um texto retirado da internet e necessário apenas para fins de informação rápida não precisa necessariamente ser traduzido por um tradutor humano profissional. O Google Tradutor ou o DeepL já dão conta do serviço completamente.
Porém:
Para se traduzir um contrato importante contendo informações sensíveis se procura um tradutor jurídico especializado. O mesmo se aplica a documentos a serem usados num processo judicial. Assim como a todo e qualquer tipo de texto que seja importante, contenha dados pessoais/estratégicos ou se destine à publicação.
Portanto, apesar de toda a evolução tecnológica, ainda assim há necessidade de tradutores humanos especializados.
O que faz um tradutor humano de especial?
Aqueles que se perguntam se ainda há um futuro para os tradutores humanos infelizmente não entenderam – por serem leigos – um fato fundamental:
Tradutores profissionais – isto é, tradutores qualificados formalmente e que vivem de tradução em vez de exercerem a profissão para ganhar um “dinheirinho extra” – fazem muito mais do que simplesmente “substituir uma palavra numa língua por outra em outra língua“.
Com base em minha experiência profissional desde 1993 posso afirmar os seguinte: em todos estes anos, meu trabalho como tradutor nunca foi “apenas traduzir”.
Alguns exemplos práticos:
- Como tradutor financeiro especializado, descubro erros factuais – além, claro, de erros tipográficos – em relatórios financeiros e os comunico aos meus clientes, para que os textos possam ser alterados antes da publicação, evitando custos adicionais com correções e republicações.
- Como tradutor jurídico juramentado, não apenas assumo responsabilidade pela exatidão de minhas traduções como também oriento meus clientes sobre a necessidade ou não-necessidade de determinados documentos em determinados processos burocráticos – com base em minha experiência de muitos anos com a burocracia Brasil-Alemanha –, evitando desperdício de tempo, estresse e sobretudo gastos adicionais.
- Como especialista em localização de sites, informo, quando necessário, os meus clientes que determinada frase ou determinado produto não cai bem no país-alvo (no caso: Brasil) devido a diferenças interculturais, para que o item em questão possa ser adaptado em tempo hábil antes do lançamento da campanha publicitária no país.
Tudo isso e muito mais só os tradutores humanos podem oferecer – não a tradução automática do aplicativo de IA.
Por que contratar um tradutor humano?
Para as massas que só precisam de textos traduzidos para fins meramente informativos sem maiores exigências, os tradutores humanos profissionais são simplesmente caros demais, lentos e complicados. E não tem nada de errado nisso.
Afinal, você não contrata um médico ou tabelião público “sem mais nem menos”, mas sim porque você precisa desse profissional. O mesmo vale para tradutores humanos profissionais.
Tradutores humanos profissionais só são realmente necessários em situações nas quais se busca um grau especialmente alto de qualidade, expertise, confidencialidade e seriedade – ou seja, em situações nas quais se precisa de um ser humano com qualificações.
A profissão de tradutor vai acabar?
Diante do que foi descrito acima, eu como tradutor humano especializado não tenho medo do futuro da tradução meramente por causa da evolução da tradução automática e Inteligência Artificial.

Muito mais problemático e ameaçador é ver tradutores jovens, apesar de suas qualificações, vendendo seus serviços abaixo do preço de mercado e contribuindo assim para uma pressão de baixa de preços no mercado como um todo. Afinal, sabe-se que quem é barato hoje amanhã estará concorrendo com outros que são ainda mais baratos e que, por sua vez, um dia acabarão sendo caros demais, e assim sucessivamente. Esta é a boa e velha corrida para o fundo do poço.
Dessa forma, não tenho medo da máquina de traduzir, pois como tradutor profissional eu aprendi a usar ferramentas de aumento da produtividade.
Tampouco de pessoas meramente bilíngues que não têm qualificação na área de tradução e trabalham ou querem trabalhar como tradutores, pois o mercado mais cedo ou mais tarde acaba se ocupando de separar o joio do trigo.
Tenho medo somente de colegas tradutores qualificados que não percebem que, por serem tradutores humanos profissionais, podem oferecer um diferencial de mercado desde que invistam em capacitação contínua e especialização.
Para concluir, se algum dia a profissão de tradutor acabar, a culpa será dos próprios tradutores, não das máquinas. Até isso acontecer, prefiro concentrar-me em disponibilizar a minha especialização e a minha experiência de longos anos como tradutor humano a serviço de clientes de alto nível – em vez de oferecer um serviço impessoal massificado. Aliás, graças a essa estratégia, tenho atualmente – assim como sempre tive – trabalho de sobra.
[Este texto encerra a longa série de artigos que marcam o aniversário de 25 anos do meu primeiro diploma de tradutor. Foi um grande prazer fazer este registro de memórias, constatações e observações e discutir um pouco sobre o passado e presente da profissão de tradutor. Se você perdeu os demais artigos publicados, veja aqui um prático resumo.]
